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Chegando à aldeia do Mosteiro respira-se então o sabor da ruralidade bem
expresso, onde as casas tradicionais com paredes de granito se fundem tão
bem com a própria paisagem serrana de granitos e castanheiros, que em certas
perspectivas e à distância por vezes, mal se adivinha a sua presença, numa
sintonia quase perfeita entre o Homem e a Natureza.
Cabeços arredondados granítico, sulcado pelo vale do Távora onde este
pacificamente corre por entre choupos, amieiros e salgueiros, e matas
imensas de pinheiros, castanheiros e azinheiras caracterizando a paisagem
deste território.
Os cenários denotam as variações do solo: verdejantes no vale junto ao rio
Távora, abaixo da aldeia, e mais agrestes abertos e salpicados de
castanheiros e morros graníticos nas partes altas acima do Mosteiro. O
Santuário da Senhora de Ao Pé da Cruz constitui o ponto mais alto da
serrania, onde a aragem, no Verão, é leve e agradável.
Já na aldeia do Mosteiro encontramos o seu convento, fundado no século XV
conhecido pelas virtudes das
suas monjas e pelo clássico doce de pêra.
Antes duma certa degradação que sofreu até há bem poucos anos, era formado por um acervo
de celas humildes em torno de um airoso templo, com um claustrozinho
animado por graciosa fonte e viridentes arbustos.
Uma cerca relativamente pequena, cujos muros, a norte, roçam pela
aba da serrania, abarcava por dois lados o mosteiro.
A torre da igreja senhoreava sobre toda a cerca e sobre a povoação,
que o tempo fez acantonar à volta do mosteiro, por ele laborando e
dele colhendo a base de um sustento condigno.
A sua localização a dois Km de Sernancelhe acertou-se com o estreito
mais aprazível vale que o Távora rasgou na raiz do monte de Santa
Cruz e ainda agora banha e fecunda.
Não sendo opulento o Mosteiro, dispunha de tesouros naturais que o
local prodigalizava para delícia inocente das religiosas, que, no
contacto com a natureza, logravam modos de enaltecer o Criador,
granjear a subsistência própria e edificar espiritual e
materialmente o presente e o futuro da população circunstante.
Hoje quem dali se abeirar, só encontra ruínas do cenóbio e uma
igreja finalmente recuperada nos últimos anos. Já nem a velha torre de vigia a robustez do
casario ou os movimentos do decoro das monjas ou o idílio dos pares
enamorados.
O claustro, as celas, os corredores, a cozinha, o refeitório, os
jardins, os passeios, os tanques e as fontes – tudo outrora pujante, mas
agora de mera subsistência. Mesmo assim, o local parece já dar asas e ares a um
futuro empreendimento de reconfortante repouso. Parece que o novo
proprietário, está sensibilizado para o aproveitamento do espaço em fins
turísticos e na utilização das saborosas águas que brotam da montanha.
A origem desta instituição é particularmente acidentada. Na paróquia
de Palhais, havia em tempos longínquos uma ermida dedicada a Nossa Senhora
da Conceição, de acentuada veneração por parte dos fieis das redondezas. O
concelho de Trancoso fornecia o maior contingente de devotos. Para o fomento
e auxílio da devoção foi ali erecto um convento de frades Bentos. Mas o seu
funcionamento foi por pouco período de tempo e em 1460 foi convento e foi
transferido para o actual local, na margem direita do Távora.
Com ele veio a imagem de Nossa Senhora da Conceição, que também dá pela
denominação de Senhora do Coro. Pedro de Ameixoeira assumiu a
responsabilidade de mudar a finalidade do mosteiro e confiou-o aos frades de
S. Francisco de Assis.
Mas a Câmara de Sernancelhe (estrutura eclesiástica que nada tem a
ver com o sentido que modernamente se atribui ao órgão de gestão do
município), poucos anos volvidos, invocando cláusulas contratuais
acordadas anteriormente com frei D. Pedro, deu ordem de expulsão aos
frades. Em 1483, D. João II, por ocasião da sua visita a S. Domingos
de Fontelo, aceitou a denúncia do leigo João Cabeça de Vaca e mandou
regressar ao seu convento os frades que tinham sido expulsos.
Porém, a sorte não os bafejou. Em 1520, D. Maria Pereira, que não a
fundadora do Convento da Tabosa, mas também natural de Sernancelhe e
parenta dos Condes da Feira, arrimando-se na sua influência e
riqueza e convicta de que os “homens” cedo lograriam um lugar onde
pudessem assentar arraiais, expulsou os frades do
Convento, tomou conta dele e nele ingressou com as suas filhas. Assim o
Mosteiro da Ribeira (vem-lhe o nome da situação nas cercanias do rio)
passou de instituição de frades a morada e vivenda de freiras. Mantém-se
na mesma família religiosa, mas no ramo feminino, sob a égide de santa
Clara de Assis, irmã do seráfico patriarca. A “usurpadora” foi abadessa
perpétua, a que se seguiram mais três com o mesmo estatuto: D. Isabel
Aranha, D. Beatriz Pinto e D. Ana Fonseca – todas de linhagens egrégias.
Em 1584, o convento passou, com a aprovação da Santa Sé, ao regime de
abadessas trienais.O cenóbio, enveredando pelas vias da virtude
consolidada e pela observância escrupulosa das regras monásticas, formou
ali religiosas de notável espiritualidade e arvorou-se em pujante centro
onde se recrutaram agentes de reformação para outros mosteiros e criação
de novos, como por exemplos os de Couto, Almeida, Montemor-o-Velho e
Torres Novas.
Apesar de ser um dos pontos de irradiação da luz evangélica, o
convento foi extinto em 1834, por força do decreto de Joaquim
António de Aguiar.
Foi concedido que se mantivesse em actividade até à morte da última
religiosa, não sendo lícito proceder a mais nenhuma admissão. E as
religiosas passaram a viver da miséria ou das esmolas. Em 1874,
algumas religiosas mendigavam na cidade do Porto e o “jornal de
notícias” chegou a abrir uma subscrição para providenciar à sua
sobrevivência precária. A última professora chamava-se Rita de
Cássia e era oriunda de S. João da Pesqueira, de família abastada.
Entrou para o Convento com dote mais que bastante para o sustento e
vestuário. E a lei extorquiu-lhe o dote reduziu-a à miséria, à
esmola e à fome.
O Convento desapareceu mercê das revoluções políticas
e sociais, mas não se desfez o vale pequenino e solitário que ele
animou séculos e séculos por entre penedias que enclausuravam
misticamente um reduto populoso marcado pela fé baptismal.
Conhecendo a história do local, podemos contextualizar e idealizar a vida
do passado destruído pela renúncia e a virtude que santificaram este lastro
granítico.
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