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Peregrinação a Fátima em BTT


Passou o Inverno e a Primavera a treinar, juntamente com mais uns amigos de Sernancelhe, para uma grande odisseia de sacrifício e fé.

Volvido cerca de um mês e meio, pleno de força, entusiasmo e motivação, o Miguel  juntamente com os colegas, avançam em direcção a Fátima, percorrendo os 250 Km em pouco mais de um dia.

Voltaram a Sernancelhe com uma grande satisfação pelo objectivo cumprido do ponto de vista físico, psicológico e mecânico. Com efeito, as máquinas cardíaca, muscular e a pedais, passaram todas elas com distinção neste teste extremo.

Durante o caminho sofreram bastante com o calor. Mas isso não foi novidade, já era esperado.

Estava tudo a correr demasiado bem. Mas numa das subidas mais duras do caminho – a subida ao Bussaco – a surpresa surgiu: durante o percurso começou a chover torrencialmente. Choveu persistentemente durante os cerca de 5 Km de subida ininterrupta.

À chegada à povoação do Bussaco nova dificuldade: completamente encharcados com o frio que começaram a sentir, tolhiam-se-lhes os movimentos. Impensável descer assim com o corpo gelado. Havia que esperar alguma acalmia nas condições meteorológicas.
Só mais tarde é que aquele episódio fez sentido para todos os companheiros de viagem: não fora um acaso; aquelas dificuldades tinham-lhes sido colocadas propositadamente, para que se lembrassem que o caminho para Fátima era feito de dificuldades, havendo que ser perseverante, tenaz e sofrer para ultrapassar todos os obstáculos

Hoje, dão valor a estas dificuldades. Ficou-lhes na imaginação o percurso. Em pensamentos tantas vezes refazem o caminho; vêem-se de novo a parar a bicicleta numa excitação e a meter conversa com um transeunte procurando quatros quilómetros faltavam para a próxima aldeia.

A alegria mútua de falar beirão, o querer saber de onde eram eles e de onde estes vinham, a admiração recíproca pela coragem posta no caminho – a deles por pedalarem tanto, de tão longe, em autonomia; a do Miguel e companheiros por eles caminharem lentamente, carregados de produtos agrícolas ou mercearias.

Repete-se certamente nas memória as aconchegantes sensações sentidas e oferecida pelas gentes das aldeias e vilas, ante a proximidade à maneira de estar beirã. Nem o odor exalado pelas vacarias e aviários para lá de Mortágua diminui certamente o sentimento!


Antes que esses pensamentos se vão, pois são o que de mais precioso trouxe do caminho;

Antes que se esqueçam do que viveram no caminho;

Antes que se desvaneçam nas suas memórias os rostos das gentes que encontraram, do misto de sensações de medo, de alegria, de dor, de convívio, de entre-ajuda;

Antes que olvide as coisas simples, como olhar e a visão de subidas intermináveis.

Antes que já não se lembrem do sabor das cerejas e laranjas roubadas naquele percurso.

 

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